<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Rosane da Silva Borges]]></title><description><![CDATA[Professora, jornalista, escritora, analista do tempo presente. Ativista das relações raciais e de gênero. Consultora de mídia e de TV]]></description><link>https://rosanedasilvaborges.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!UB9N!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4e3b2a40-57ce-4e63-ba5f-60c27e878b6f_398x400.png</url><title>Rosane da Silva Borges</title><link>https://rosanedasilvaborges.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Thu, 07 May 2026 15:32:43 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://rosanedasilvaborges.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Rosane da Silva Borges]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[rosanedasilvaborges@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[rosanedasilvaborges@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Rosane da Silva Borges]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Rosane da Silva Borges]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[rosanedasilvaborges@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[rosanedasilvaborges@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Rosane da Silva Borges]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Uma derrota histórica que pode ser uma janela de oportunidade para o país:uma mulher negra para o STF já!]]></title><description><![CDATA[E agora, Jos&#233;?]]></description><link>https://rosanedasilvaborges.substack.com/p/uma-derrota-historica-que-pode-ser</link><guid isPermaLink="false">https://rosanedasilvaborges.substack.com/p/uma-derrota-historica-que-pode-ser</guid><dc:creator><![CDATA[Rosane da Silva Borges]]></dc:creator><pubDate>Thu, 30 Apr 2026 05:18:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!UB9N!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4e3b2a40-57ce-4e63-ba5f-60c27e878b6f_398x400.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p><strong>E agora, Jos&#233;?</strong></p><p>Ineditismos ou quase ineditismos provocam perplexidade. Ontem, 29 de abril, foi um dia tenso no Senado brasileiro que cravou uma a&#231;&#227;o in&#233;dita que estava em  hiberna&#231;&#227;o desde o s&#233;culo XIX: por 42 votos a 34, os senadores barraram a <a href="https://click.newsletterg1.globo.com/?qs=ABB7InYiOjEsImQiOjQ4NjF9AAoAAAAAAG7lcHLtZntwaUXYqet4c3-GI641GtWOMJ9el4iEGsQo0pcIo01IfbSo9r5MbHv-6sYaWKSLxUo3o3f5-C2L3xZLF3Jv_JGT0w4ivZ8jlUji">indica&#231;&#227;o de Jorge Messias</a>,  nome escolhido pelo presidente Lula para a vaga de Lu&#237;s Roberto Barroso.</p><p>Acompanhei o processo de vota&#231;&#227;o com o engajamento de cidad&#227;, mulher negra, professora e jornalista atenta aos desdobramentos da pol&#237;tica institucional. Mesmo sabendo das dificuldades em emplacar o nome do advogado-geral da Uni&#227;o, acreditava que, ao fim e ao cabo, ele seria ungido pelo Senado Federal. Afinal de contas, acabei tamb&#233;m escutando o canto da sereia de agentes do governo que distribu&#237;am certeza e mais certeza, com sorrisos largos, sempre convictos nas declara&#231;&#245;es p&#250;blicas dos &#250;ltimos dias.  Do alto de uma confian&#231;a inabal&#225;vel, a Secretaria de Rela&#231;&#245;es Institucionais descartou a possibilidade de adiar a sabatina, pois, ora, ora, mais do que 41 votos (o m&#237;nimo para a aceita&#231;&#227;o do nome de Messias),o governo tinha chegado aos 45,50 (esqueceram de consultar  compadre Washington). &#201; mais que prov&#225;vel  que o adiamento n&#227;o mudaria muita coisa.</p><p>O sinal voltou a projetar sua luz amarela na vota&#231;&#227;o da Comiss&#227;o de Constitui&#231;&#227;o e Justi&#231;a, na qual o placar mostrava um resultado com magra diferen&#231;a, apertad&#237;ssima, contrastante com as informa&#231;&#245;es de que o governo teria conseguido a composi&#231;&#227;o de uma Comiss&#227;o pr&#243; Messias. Com o resultado, a pergunta que n&#227;o queria calar: como assim, uma diferen&#231;a de apenas cinco votos? Os n&#250;meros para mim passaram a augurar o pior (ou o melhor, caso fa&#231;amos algumas rota&#231;&#245;es de perspectiva).</p><p> Um pouco depois das 19h, a not&#237;cia era l&#237;quida e  certa.  Um paralelo inescap&#225;vel se imp&#244;s: derrota semelhante s&#243; h&#225; 132 anos, nos exatos 1894, na gest&#227;o de Floriano Peixoto, tida como turbulenta e err&#225;tica. O resultado levantou o v&#233;u de muitas quest&#245;es com conex&#245;es ocultas ou vis&#237;veis. Entre as vis&#237;veis, est&#225; o fato de que n&#227;o foi s&#243; eu que acreditei no canto da sereia (ainda que momentaneamente), mas tamb&#233;m parte do governo se apegou &#224;s planilhas que engordavam os votos a favor de Messias e serpenteavam  os corredores palacianos, ignorando as persistentes negocia&#231;&#245;es nos corredores do Congresso. (corre por a&#237; que at&#233; o senador Alessandro Vieira, defensor hist&#243;rico da Lava-Jato e cr&#237;tico contumaz do Supremo, constava como votante pr&#243;-governo).</p><p>Diriam os analistas da <em>realpolitik:</em> &#8220;Mas, Rosane, calma l&#225;, Davi Alcolumbre conspirou contra a indica&#231;&#227;o at&#233; o &#250;ltimo momento, mudando a dire&#231;&#227;o dos ventos da vit&#243;ria do governo&#8221;. Retruco eu: Sim, as movimenta&#231;&#245;es expressivas de Alcolumbre s&#227;o o testemunho de que ele n&#227;o piscou nenhum momento, que se empenhou diuturnamente, fez tudo o que p&#244;de horas antes da vota&#231;&#227;o no plen&#225;rio. Mas &#233; igualmente verdade que houve, digamos assim, uma &#8220;curadoria&#8221; que partiu do entendimento  de que os atributos de evang&#233;lico e amigo do presidente (que passou a falar, com frequ&#234;ncia, em lealdade para a indica&#231;&#227;o) seriam suficientes para remover os obst&#225;culos j&#225; sabidos.</p><p><strong>&#201; lucro para quem acenar para o combo religi&#227;o-amizade em contexto eleitoral?</strong></p><p>Num Congresso confessadamente crist&#227;o e evang&#233;lico, tais atributos n&#227;o representavam um &#8220;plus a mais&#8221; para Messias, assim como foi para outros candidatos aprovados. Na verdade, foi um &#8220;plus a menos&#8221;. E por que o foi, de tal modo que parte expressiva da bancada evang&#233;lica e das lideran&#231;as conservadores subscreveram a reprova&#231;&#227;o?</p><p>Porque no tabuleiro da pol&#237;tica institucionalizada brasileira, ser evang&#233;lico n&#227;o &#233; um dado imperturb&#225;vel, mas &#233; atravessado por fatores pol&#237;ticos e ideol&#243;gicos. Pastores, em particular, e religiosos, em geral, v&#234;m sinalizando que n&#227;o &#233; a f&#233; que os une naquela plataforma, mas a ideologia pol&#237;tica. Assim, os r&#243;tulos crist&#227;o petista (me desculpe, Messias, mas n&#227;o importam se s&#227;o  ou verdadeiros ou mentirosos) e amigo demais do presidente fizeram com que a etiqueta de representante do PT e n&#227;o da maioria evang&#233;lica se sobrepusesse &#224; ideia de aceno aos evang&#233;licos que o governo n&#227;o se furtava em afirmar. O deputado S&#243;stenes Cavalcante (PL-RJ) surfou nesse &#8220;postulado&#8221;.</p><p>Carregamos identidades m&#250;ltiplas, mas o fato de tamb&#233;m ter sido subchefe jur&#237;dico da Casa Civil durante o governo Dilma e ter seu nome citado na Opera&#231;&#227;o Lava-Jato, fazia de Messias algu&#233;m longe de ser  &#8220;terrivelmente evang&#233;lico&#8221; (est&#227;o lembradas/os/es?), ou at&#233; mesmo um moderado. As suas liga&#231;&#245;es presentes e passadas macularam a sua profiss&#227;o de f&#233; e o exclu&#237;ram de uma comunidade de perten&#231;a religiosa. Isto &#233;, o Senado diz que ser evang&#233;lico e pr&#243;ximo do presidente ou do PT &#233; como &#225;gua e &#243;leo, e &#233; preciso purificar essa mistura. Se para a direita e a extrema direita esse combo &#233; m&#250;sica para os ouvidos, para a esquerda mobiliz&#225;-lo, principalmente em contexto eleitoral, &#233; brincar com fogo.</p><p>&#8220;Ah, Rosane, mas voc&#234; acredita at&#233; em Papai Noel.  Essa reprova&#231;&#227;o passa por outras quest&#245;es ainda mais pedestres&#8221;, podem insistir os analistas de plant&#227;o da realpolitik. Sim, estou ligada, mas o que importa destacar no dia seguinte s&#227;o os elementos que fizeram o la&#231;o discursivo para, verdade ou mentira, oferecer o delineamento da deslegitima&#231;&#227;o e desidrata&#231;&#227;o de Messias sob as barbas e olhos de muita gente que achava que tinha a chave da solu&#231;&#227;o dos problemas. Sabemos que a derrota deste 29/4 abre avenidas para outros desmandos (a vota&#231;&#227;o da Dosimetria &#233; a primeira da fila).</p><p><strong>A indica&#231;&#227;o de uma mulher negra para o STF, para al&#233;m da representa&#231;&#227;o de um grupo</strong></p><p>Exatamente por isso reafirmo que a trajet&#243;ria da campanha pr&#243;-Messias foi pontilhada de erros t&#225;ticos (e falei isso bem antes da derrota de ontem, 29/4). Mas quem somos n&#243;s, mulheres negras, para apontar erros, dizer alguma coisa  ou at&#233; mesmo indicar algu&#233;m para ocupar uma cadeira no STF?</p><p>Somos as sujeitas pol&#237;ticas que desde sempre falamos o seguinte: em pleno s&#233;culo XXI, o uso do termo lealdade e proximidade pela via exclusiva do afeto e conhecimento &#237;ntimo sustentam o que h&#225; de mais anti-democr&#225;tico, anti-republicano e alimentam um ambiente homog&#234;neo, al&#233;rgico &#224; pluralidade e &#224; diversidade (como indicar mulheres, especialmente negras e ind&#237;genas adotando esse crit&#233;rio como se fosse cl&#225;usula p&#233;trea?). Fomos n&#243;s os grilos falantes que l&#225; atr&#225;s dissemos que o uso persistente desses dois termos (como se fossem garantidores do Estado Democr&#225;tico de Direito e da boa rotina da vida institucional) poderia dar ruim num Congresso do quilate que n&#243;s temos. E deu!</p><p> Foi em nome da lealdade e proximidade acopladas a um evangelismo que n&#227;o representa os evang&#233;licos que o nome de Messias foi ejetado. Em nome de um padr&#227;o das &#250;ltimas escolhas (amigo a quem confio) que senadores escroques arrancaram concord&#226;ncia de setores ponderados da sociedade brasileira. (o senador Rog&#233;rio Marinho vestiu a pele de cordeiro para dizer: n&#227;o temos nada contra Messias, mas de novo e mais uma vez esse argumento de amigo do presidente, de proximidade. E teceu seus argumentos com verniz aparentemente republicano, com o timbre do razo&#225;vel).</p><p>A pergunta que n&#227;o quer calar: com tr&#234;s indica&#231;&#245;es ao STF (duas com as justificativas p&#250;blicas que todos n&#243;s sabemos quais foram), n&#227;o h&#225; possibilidade de uma ser dinamizada pelas demandas contempor&#226;neas que aperfei&#231;oam a nossa democracia e refor&#231;am as nossas institui&#231;&#245;es para que o pa&#237;s n&#227;o seja v&#237;tima de manobras como as de ontem? N&#227;o &#233; a proximidade que nos livra dos desmandos, &#233; a presen&#231;a dela que d&#225; muni&#231;&#227;o para o retrocesso.</p><p>Estamos, mais uma vez, frente a uma oportunidade &#250;nica. A de devolver ao poder p&#250;blico um debate republicano que passe pelo fortalecimento das institui&#231;&#245;es. A indica&#231;&#227;o de uma mulher negra no STF seria, nessa altura do campeonato, a &#250;nica poss&#237;vel, pois a lealdade e a intimidade seriam  com a democracia, com os princ&#237;pios republicanos, com a justi&#231;a e com a pol&#237;tica de repara&#231;&#227;o. Para isso, a amizade pessoal n&#227;o deve ser prerrogativa, mas a compreens&#227;o de trajet&#243;rias pessoais comprometidas com a Na&#231;&#227;o.</p><p>Sem sombra de d&#250;vidas, para tal pleito n&#227;o far&#237;amos romarias de conversas e de convencimento sozinhas pelos corredores do Congresso, gastando sola de sapato e sendo voz no deserto, mas caminhar&#237;amos  com parte expressiva de um pa&#237;s que teria for&#231;a o suficiente para debelar qualquer tentativa de deslegitima&#231;&#227;o e de amea&#231;a eleitoral, como sempre vimos fazendo (a vit&#243;ria do campo progressista quase sempre &#233; assegurada por n&#243;s). Resolutamente, em tempos dif&#237;ceis como esse n&#227;o far&#237;amos diferente. &#201; dessa confian&#231;a, dessa proximidade e dessa lealdade que o pa&#237;s precisa agora, antes que seja tarde demais.</p><p>O presidente Lula poderia adotar o m&#233;todo Bela Gil e trocar o ineditismo da reprova&#231;&#227;o, s&#243; experimentado h&#225; 134 anos, pelo ineditismo de uma indica&#231;&#227;o que rompe com o atraso. A reprova&#231;&#227;o de Jorge Messias nos teletransporta para o s&#233;culo XIX, fazer de temas religiosos um dos principais quesitos de uma sabatina, idem; j&#225; a indica&#231;&#227;o de uma mulher negra d&#225; &#224;s boas vindas ao s&#233;culo XXI e pode conter com o obscurantismo que tenta vestir o Congresso Nacional e, tal como uma mortalha , prenunciar o pior para o pa&#237;s e para o governante de plant&#227;o.</p></blockquote><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://rosanedasilvaborges.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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O reposicionamento de quest&#245;es fundamentais para o redesenho da na&#231;&#227;o brasileira e para a defesa da soberania passa, necessariamente, pelos projetos gestados por essas popula&#231;&#245;es, que adotam o trip&#233;<strong>  desenvolvimento - justi&#231;a social</strong> - <strong>sobreviv&#234;ncia coletiva </strong>como la&#231;o indissol&#250;vel atrav&#233;s do qual se reafirma o compromisso com a vida coletiva.</p><p style="text-align: justify;">A figura de Tiradentes, o apelido de Joaquim Jos&#233; da Silva Xavier, &#233; parte indissoci&#225;vel da mem&#243;ria nacional que, desde o ensino fundamental, &#233; revisitada anualmente como s&#237;mbolo de liberdade e emancipa&#231;&#227;o. O alferes (cargo militar da &#233;poca colonial) que tamb&#233;m exerceu a profiss&#227;o de dentista, tornou-se s&#237;mbolo inequ&#237;voco de contesta&#231;&#227;o do poder da Coroa portuguesa sobre o Brasil Col&#244;nia.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://rosanedasilvaborges.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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N&#227;o se tratava, certamente, de um projeto de liberdade coletiva e de emancipa&#231;&#227;o da na&#231;&#227;o, mas da tentativa de tornar Minas Gerais rep&#250;blica independente, sem conex&#227;o com as aspira&#231;&#245;es mais nobres do pa&#237;s.</p><p style="text-align: justify;">Nesta quadra da hist&#243;ria, ora, ora, nos vemos enredadas(es/os) em discuss&#245;es que nos levam a deslocar o legado da Inconfid&#234;ncia Mineira e a p&#244;r em relevo projetos que se apoiam  no trip&#233; acima referido (desenvolvimento, justi&#231;a social e sobreviv&#234;ncia coletiva) para a gest&#227;o de um projeto de Na&#231;&#227;o efetivamente inclusivo e emancipat&#243;rio.</p><p style="text-align: justify;">Num contexto marcado por sucessivas amea&#231;as &#224; nossa soberania, por um capitalismo predat&#243;rio, torna-se imperativo &#233;tico e urg&#234;ncia pol&#237;tica ouvir as vozes dos povos origin&#225;rios e da popula&#231;&#227;o negra que destoam dos interesses vocalizados pelos inconfidentes do s&#233;culo XVIII.</p><p style="text-align: justify;"> Quando examinamos, em sobrevoo, os movimentos do mundo no que diz respeito &#224; economia, nos damos conta dos interesses em jogo. Ao gosto da freguesia, o Brasil oferece benesses literalmente para todo o mundo no que tange os recursos naturais.  No tabuleiro da geopol&#237;tica,  os EUA nos veem como uma imensa cadeia de suprimento de minerais cr&#237;ticos, e tentam seguir sem freios, colocando em risco os nossos rios e florestas. J&#225; a China direciona seu olhar voraz para a produ&#231;&#227;o de soja, para as hidroel&#233;tricas, o ni&#243;bio e as terras raras, nos dizendo que entende do riscado para a explora&#231;&#227;o dessas terras (o gigante asi&#225;tico possui o dom&#237;nio global absoluto na tecnologia de terras raras, controlando desde a extra&#231;&#227;o (mais de 60%) at&#233; mais de 90% do refino e fabrica&#231;&#227;o de &#237;m&#227;s permanentes). Os europeus seguem obcecados pela Amaz&#244;nia e seus recursos minerais tentando administrar a governan&#231;a ambiental que atenda &#224;s diretrizes de Bruxelas.</p><p style="text-align: justify;">O apetite da freguesia aumenta com a guerra EUA/Israel e Ir&#227;, uma vez que o ouro torna-se, mais uma vez e sempre, o balizador da economia  global e a Amaz&#244;nia volta a ocupar o epicentro de uma explora&#231;&#227;o na qual o avan&#231;o do garimpo, a viol&#234;ncia e projetos miner&#225;rios devastadores tornam-se as principais cifras de um mundo em colapso.</p><p style="text-align: justify;"> De acordo com Juma Xipaia, cacica da aldeia Kaarim&#227;, e Ivo Makuxi, advogado Makuxi, nesse contexto a Amaz&#244;nia se converteu em fronteira de sacrif&#237;cio: &#8220;querem transformar o Xingu na maior mina de ouro a c&#233;u aberto da hist&#243;ria do Brasil numa regi&#227;o j&#225; devastada por Belo Monte. &#201; o projeto Volta Grande, da canadense Belo Sun Mining, com cavas a c&#233;u aberto, uso de cianeto e barragem de rejeitos. Se essa estrutura romper, a destrui&#231;&#227;o de um dos maiores rios da Amaz&#244;nia ser&#225; irrevers&#237;vel.&#8221; A alta do ouro n&#227;o &#233; apenas uma quest&#227;o de mercado, &#233; assunto que se entranha nas redes globais opacas, nas cadeias ilegais, impactando nos territ&#243;rios drasticamente, concluem os dois especialistas.</p><p style="text-align: justify;">Como pensar em desenvolvimento, em justi&#231;a social, em soberania nessa atmosfera em que, ainda repetindo Xipaia e Makuxi, a Amaz&#244;nia &#233; vista como almoxarifado de ouro, &#224; disposi&#231;&#227;o de mercados em p&#226;nico ou pot&#234;ncias em guerra?</p><p style="text-align: justify;">Uma das possibilidades de construir e defender um projeto de na&#231;&#227;o reside na escuta das comunidades ind&#237;genas, quilombolas, das mulheres negras e, por extens&#227;o, dos grupos historicamente discriminados. A plataforma do Bem Viver est&#225; &#224; altura de um cotidiano que faz da escassez a forma de vida, no presente e no futuro. Decididamente, &#233; preciso considerar o que irradia dessa plataforma em contexto eleitoral.</p><p style="text-align: justify;">Como eu disse no meu &#250;ltimo livro, Imagin&#225;rios emergentes e mulheres negras: representa&#231;&#227;o, visibilidade e formas de gestar o imposs&#237;vel (Editora Instante):</p><blockquote><p>sob esse ponto de vista, os feminismos negros, em particular, e as mulheres negras, em geral, se tornaram fen&#244;menos de vid&#234;ncia: parte da sociedade via o que ela continha de intoler&#225;vvel e via tamb&#233;m a possibildiade de algo diferente, como disse Deleuze. E esse algo diferente foi acolhido pela proposta do Bem Viver que, inspirada nos povos ind&#237;genas, manufatura uma filosofia, um sistema de vida, uma proposta pol&#237;tica que recusa, radicalmente, os princ&#237;pios do capitalismo, da viola&#231;&#227;o da vida e dos direitos.</p></blockquote><p style="text-align: justify;">E essa filosofia, esse sistema de vida, n&#227;o se avizinha da inconfid&#234;ncia de uma elite que s&#243; se insurgiu contra a Coroa em nome de interesses pr&#243;prios. Ao contr&#225;rio. As insurg&#234;ncias desses povos  se d&#227;o em nome do coletivo e prop&#245;em o desenho de uma na&#231;&#227;o soberana, na qual desenvolvimento vem sempre acompanhada de justi&#231;a social. Uma sem a outra s&#243; alimenta a l&#243;gica predat&#243;ria que aprofunda a viol&#234;ncia contra meninas e mulheres n&#227;o brancas.</p><p style="text-align: justify;">Que o 21 de abril nos leve a pensar no verdadeiro sentido da liberdade e da emancipa&#231;&#227;o pelas vozes leg&#237;timas que desde 1500 entoam o coro da den&#250;ncia e da transforma&#231;&#227;o!</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://rosanedasilvaborges.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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Devo confessar que prefiro o artigo de Vladimir Safatle, que apresenta diversos pontos com os quais eu concordo, com toda a reserva de discord&#226;ncia.</p><p>Em &#8220;Contra Nego Bispo&#8221;, Douglas Barros  lan&#231;ou uma diatribe contra Antonio Bispo dos Santos, mais conhecido como Negro Bispo, quilombola, trabalhador rural, nascido no Vale do Rio Berlengas, Piau&#237;. Em tom de abrevia&#231;&#227;o, para o psicanalista, a pr&#225;xis do piauiense &#233; vertebrada por uma concep&#231;&#227;o a-hist&#243;rica de cosmologia, pela homogeneiza&#231;&#227;o da experi&#234;ncia colonial que hipostasia o conceito de ra&#231;a e pela sustenta&#231;&#227;o m&#237;tico-religiosa de sua oralidade.</p><p>Esse ataque tr&#237;plice aos argumentos de Nego Bispo &#233; antecedido por um diagn&#243;stico que n&#227;o se agrisalha: para Douglas, &#8220;vivemos ainda na ressaca das ru&#237;nas da URSS, o que acaba equivalendo a experi&#234;ncia socialista &#224; burocracia estatal; as revolu&#231;&#245;es permanentes no interior do capitalismo organizaram um poderoso arcabou&#231;o de domina&#231;&#227;o simb&#243;lica e imagin&#225;ria, que acabou capturando a pr&#243;pria imagina&#231;&#227;o pol&#237;tica; as transforma&#231;&#245;es na sociabilidade, guiadas pela revolu&#231;&#227;o informacional e pela domina&#231;&#227;o integral do tempo de vida - tornado agora tempo de trabalho -, tamb&#233;m consolidaram um radical esp&#237;rito antirracional, auxiliado at&#233; mesmo pelas universidades.&#8221;</p><p><strong>Como mobilizar a imagina&#231;&#227;o pol&#237;tica?</strong></p><p>O  libelo de Douglas Barros, constru&#237;do com pompa, mas sem circunst&#226;ncia, parece atravessar como cortina de fuma&#231;a a arquitetura conceitual de Nego Bispo, uma vez que a leitura da obra do quilombola piauiense e o acompanhamento de suas interven&#231;&#245;es p&#250;blicas permitem notar a trajet&#243;ria de um homem que se entranha nas camadas mais profundas do mundo para, ao modo das serpentes que produzem a ecdise (a troca de pele em r&#233;pteis), confeccionar nova pele para o mundo, da epiderme &#224; hipoderme. N&#227;o h&#225; paralelo poss&#237;vel entre Nego Bispo e a tradi&#231;&#227;o rom&#226;ntica alem&#227;; n&#227;o h&#225; deser&#231;&#227;o da realidade em seus embates de classe, n&#227;o h&#225; quimera, nem sonho arcaico, mas compromisso inarred&#225;vel com a materialidade da nossa exist&#234;ncia, com a aventura concreta da vida que subalterniza humanidades. Pode-se discordar de alguns pontos de vista que prismam a vis&#227;o de mundo do escritor (como &#233; o meu caso), mas dizer que ele &#233; antimaterialista, irracional,  &#233; adotar o figurino com o qual se acusa Bispo de se vestir para intervir no mundo e colocar a cara no sol da visibilidade pol&#237;tica.</p><p>&#201; exatamente porque a imagina&#231;&#227;o pol&#237;tica foi capturada pela engenharia capitalista, porque saiu de cena at&#233; mesmo dos palcos progressistas e de esquerda (vivemos uma era em que pol&#237;tica se reduziu &#224; gest&#227;o), que Nego Bispo se empenha em revitaliz&#225;-la por meio de uma chave que acessa uma caixa de ferramenta que opera rebeli&#245;es do imagin&#225;rio e da imagina&#231;&#227;o. Como afirmei no meu livro rec&#233;m lan&#231;ado, Imagin&#225;rios emergentes e mulheres negras: representa&#231;&#227;o, visibilidade e formas de gestar o imposs&#237;vel (editora Instante), &#233; preciso reconhecer o colapso retumbante do imagin&#225;rio pol&#237;tico ut&#243;pico na contemporaneidade, a despeito das tentativas de revigor&#225;-lo &#8211; como foram os casos do F&#243;rum Social Mundial e da renova&#231;&#227;o do Utopianismo na esteira da gera&#231;&#227;o da esquerda p&#243;s-globaliza&#231;&#227;o &#8211; que abriram provisoriamente portal pelo qual poder&#237;amos retomar a inven&#231;&#227;o de mundos no seio da pol&#237;tica.</p><p>Tal como os ventos animam a savana, essa ambi&#234;ncia motivou um batalh&#227;o de an&#225;lises a lavrarem o documento do fim da hist&#243;ria, ao modo de Francis Fukuyama. Para o fil&#243;sofo e economista pol&#237;tico nipo-estadunidense, o capitalismo e a democracia burguesa tornaram-se a &#250;nica forma de governamentalidade capaz de realizar a hist&#243;ria da humanidade. Fukuyama percorreu uma longa trilha que foi de Plat&#227;o at&#233; Nietzsche, passando por Kant e Hegel para nos persuadir do fim de jogo. Sem se acomodar &#224; &#8220;boa rotina do mundo&#8221;, mesmo aquela que se apresenta como bem intencionada, Antonio Bispo dos Santos n&#227;o foi seduzido pelo canto da sereia do fim do jogo, porque a hist&#243;ria &#233; come&#231;o-meio-come&#231;o.</p><p>A mesma r&#233;gua que utiliza para acusar Nego Bispo de conceber a cosmologia de forma essencialista, porque parte de especificidades que reconhece apenas na viv&#234;ncia dos expropriados e nos territ&#243;rios que eles habitam a legitimidade para a produ&#231;&#227;o do saber, &#233; adotada, linhas adiante, para, em sinal trocado, operar julgamento inverso: se no t&#243;pico da cosmologia a especificidade &#233; um problema, no que tange &#224; experi&#234;ncia colonial e racial, o problema &#233; a falta dela, pois a &#8220;unidade fornecida por uma identidade imagin&#225;ria, os contra-colonizadores&#8221;, oblitera aa &#8220;contradi&#231;&#245;es que orientam encontros e desencontros hist&#243;ricos&#8221;. No primeiro, condena-se a especificidade; no segundo, a generalidade.</p><p>&#9;No rol de acusa&#231;&#245;es a Bispo, &#233; dito que a sua teoria do conhecimento &#233; calcada na viv&#234;ncia, que se torna correlata &#224; experi&#234;ncia.  Ainda que usemos os dois termos - viv&#234;ncia e experi&#234;ncia - como coringas intercambi&#225;veis, eles n&#227;o carregam o mesmo sentido. Se mobilizarmos o conceito de experi&#234;ncia segundo o qual ela &#8220;n&#227;o &#233; o que me acontece, mas o que eu fa&#231;o com que me acontece&#8221;, a experi&#234;ncia emp&#237;rica em Antonio Bispo n&#227;o &#233; mediada pela identidade, mas o contr&#225;rio, o que faz de sua teoria uma amplia&#231;&#227;o da complexidade das rela&#231;&#245;es sociais e n&#227;o o contr&#225;rio.</p><p>E a vers&#227;o guru de Nego Bispo, que o texto coloca em relevo? Mas para quem? Se &#233; verdade essa convers&#227;o, o problema n&#227;o repousa, necessariamente, no que ele diz, mas ao como o dito &#233; interpretado por quem o l&#234;, num mundo sedento por manuais e or&#225;culos. (o que j&#225; fizeram com Foucault ou mesmo com Marx?)</p><p><strong>Quando a cr&#237;tica (n&#227;o) toca no nervo sens&#237;vel do seu tempo e da sociedade</strong></p><p>&#9;Qualquer esp&#237;rito razo&#225;vel ir&#225; insistir que teorias e pensamentos devem ser examinados, criticados, rejeitados, superados... Costuma-se dizer que um autor &#233; grande quando se consegue usar o que ele disse contra ele pr&#243;prio (insisto: eu mesma tenho v&#225;rias cr&#237;ticas ao pensamento de Nego Bispo). O texto de Douglas Barros antes de ser o exerc&#237;cio salutar da cr&#237;tica, mais parece um ataque &#224;s ideias de um autor que ousou escapar dos liames de um repert&#243;rio lingu&#237;stico al&#233;rgico &#224;s novas inflex&#245;es da linguagem e da imagina&#231;&#227;o, mesmo quando elas mant&#234;m o compromisso de detectar as bases materiais que fundamentam as desigualdades e a exclus&#227;o que alimentam o sempre voraz apetite capitalista. &#8220;Contra Nego Bispo&#8221; &#233; um texto que n&#227;o toca no nervo sens&#237;vel do organismo que examina, perdendo, assim, a oportunidade de ser uma refer&#234;ncia para se reposicionar o debate sobre coloniza&#231;&#227;o e contra coloniza&#231;&#227;o.</p><p>Ao n&#227;o ler/ouvir expressamente o voc&#225;bulo luta de classe no programa de atua&#231;&#227;o do quilombola insurgente (embora esteja), Barros afirma que h&#225; uma perigosa separa&#231;&#227;o do colonialismo de sua base material, reendere&#231;ando a teoria de Nego Bispo para um lugar infantil e apartado do mundo como ele &#233;. Mas quem disse, Berenice?</p><p>&#9;Se mobilizar a quest&#227;o fundi&#225;ria (e suas m&#250;ltiplas clivagens sociais, pol&#237;ticas, epist&#234;micas, culturais), as desigualdades estruturais, as formas da imagina&#231;&#227;o e as figura&#231;&#245;es imagin&#225;rio, n&#227;o significa mobilizar a complexidade e as contradi&#231;&#245;es do mundo material, decididamente  n&#227;o sei o que seria.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://rosanedasilvaborges.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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Segundo Sahlins, &#233; devido &#224; conex&#227;o com o sistema simb&#243;lico que o lugar da mulher negra em nossa sociedade como um lugar de inferioridade e pobreza &#233; codificado em uma perspectiva &#233;tnica e racial.</em></p><p><em>(L&#233;lia Gonzalez)</em></p><p><em>A tese que gostaria de discutir &#233; a de que desbarbarizar tornou-se a quest&#227;o mais urgente da educa&#231;&#227;o hoje em dia. O problema que se imp&#245;e nesta medida &#233; saber se por meio da educa&#231;&#227;o pode-se transformar algo de decisivo em rela&#231;&#227;o &#224; barb&#225;rie. (&#8230;) Considero t&#227;o urgente impedir isto que eu reordenaria todos os outros objetivos educacionais por esta prioridade.</em></p><p><em>(Theodor Adorno)</em></p><p><strong>Quando&nbsp; dados parecem n&#227;o servir mais &#224; nada&#8230;.</strong></p><p>J&#225; passamos da metade da terceira d&#233;cada do s&#233;culo XXI e, na aurora deste 2026, as not&#237;cias relacionadas &#224;s mortes de mulheres, especialmente as negras, crescem em escala exponencial. Enquanto escrevo este artigo, recebo a infausta not&#237;cia de que o Brasil tem recorde de feminic&#237;dios em 2025: 4 mulheres foram mortas por dia, perfazendo um arco de 1.470 casos, de janeiro a dezembro, segundo informa o Minist&#233;rio da Justi&#231;a e Seguran&#231;a P&#250;blica. Os n&#250;meros, j&#225; exorbitantes, tendem a crescer mais, uma vez que os dados de dezembro do estado de S&#227;o Paulo ainda n&#227;o foram atualizados na base do governo federal. De acordo com o Anu&#225;rio Brasileiro de Seguran&#231;a P&#250;blica, as mulheres negras somaram 63,6% das v&#237;timas de feminic&#237;dio no ano de 2024, enquanto o percentual de mulheres brancas foi de 35,7%.</p><p>Caso quis&#233;ssemos declinar mais dados de outras fontes, os n&#250;meros chegariam &#224; grandeza da astrof&#237;sica. Tome-se como par&#226;metro este ou aquele instituto de pesquisa, esta ou aquela institui&#231;&#227;o p&#250;blica ou organiza&#231;&#227;o social, este ou aquele estudo acad&#234;mico, o resultado, a despeito das varia&#231;&#245;es, percorreria o&nbsp; mesmo leito, desaguando no inadmiss&#237;vel e no inaceit&#225;vel.</p><p>Vale insistir: por que, ainda em pleno s&#233;culo XXI, momento em que j&#225; est&#227;o consolidados um arcabou&#231;o&nbsp; jur&#237;dico com tra&#231;os progressistas e avan&#231;os legislativos significativos, somos&nbsp; diuturnamente assaltadas por not&#237;cias que flagram o crescimento exponencial do feminic&#237;dio? Por que todos esses avan&#231;os, que criaram nova ambi&#234;ncia para os casos de viol&#234;ncia contra a mulher, com destaque para&nbsp; a Lei Maria da Penha, e&nbsp; colocaram a tese da &#8220;leg&#237;tima defesa da honra&#8221; no al&#231;ap&#227;o da legisla&#231;&#227;o brasileira, se mostram insuficientes para impor diques a esta barb&#225;rie?</p><p>Obviamente, este artigo&nbsp; n&#227;o tem a pretens&#227;o de dar respostas a esses questionamentos, mas se engaja no compromisso de apontar alguns endere&#231;os onde possivelmente podemos encontr&#225;-las.&nbsp;</p><p>O primeiro deles est&#225; fixado no c&#243;digo de endere&#231;amento postal (CEP) da satura&#231;&#227;o dos dados. Durante muito tempo, prevaleceu a ideia, base da ci&#234;ncia moderna cartesiana, segundo a qual &#8220;uma disciplina rigorosa precisa verificar as credenciais de todas as reivindica&#231;&#245;es de verdade. A ci&#234;ncia requer certeza, e esta s&#243; se pode basear na clareza ineg&#225;vel a que Descartes deu o nome de <em>&#233;vidence&#8221;. </em>Ainda segundo esse ide&#225;rio, a nossa posi&#231;&#227;o epist&#234;mica &#233; aprimorada pela reflexiva cristalina.&nbsp;&nbsp;</p><p>&nbsp;A digress&#227;o torna-se necess&#225;ria porque os desdobramentos desse postulado respingaram nas formas tradicionais de apreens&#227;o dos fatos (sejam eles sociais ou de qualquer outra ordem): os dados de amostragem, habitualmente vastos em termos num&#233;ricos, s&#227;o dissecados exaustivamente &#224; luz de crit&#233;rios pr&#233;-determinados estabelecidos pelas regras de cientificidade.</p><p>&nbsp;Mas, vejamos: as mortes da juventude negra brasileira, o que est&#225; acontecendo em Gaza ou no Sud&#227;o, o feminic&#237;dio, que ceifa milhares de vidas de mulheres, s&#227;o registros que se acumulam num Himalaia de informa&#231;&#245;es insofism&#225;veis, s&#227;o a evid&#234;ncia&nbsp; vergonhosa de que estamos diante de um acontecimento que amea&#231;a o que vimos chamando de civiliza&#231;&#227;o. Pelo que se v&#234;, quanto mais relatos, not&#237;cias, imagens nos chegam, mais esses fen&#244;menos criminosos parecem pouco nos afetar, chegando&nbsp; at&#233; mesmo a perder o estatuto de evid&#234;ncia. Capturados pela l&#243;gica algor&#237;tmica, os n&#250;meros em torno das viol&#234;ncias contra as mulheres parecem servir ao espet&#225;culo do presente que artificializa a dor e a como&#231;&#227;o.&nbsp;</p><p>Ao conjunto de inquira&#231;&#227;o acima arrolado, vinculo o bloco que segue: Como fazer com que os dados sobre a viol&#234;ncia contra as mulheres sejam a express&#227;o de uma realidade que barbariza a sociedade e nos rebaixa a escalas abissais?&nbsp; De que forma converter essa viv&#234;ncia cotidiana (a do feminic&#237;dio) em experi&#234;ncia que deveria&nbsp; nos atingir como socos a seco, como uma evid&#234;ncia incontorn&#225;vel que poderia nos levar a transformar algo de decisivo em rela&#231;&#227;o &#224; barb&#225;rie, como disse Adorno no pequeno trecho da ep&#237;grafe que encima este artigo?&nbsp;</p><p>Um passo fundamental, ao que tudo indica, seria romper, de forma imperativa com a metaf&#237;sica (aristot&#233;lica) dos fatos observ&#225;veis, onde a indu&#231;&#227;o empirista &#8211; gerada pela tradicional dicotomia entre teoria e observa&#231;&#227;o &#8211; tem tentado aprisionar toda a amplitude do real, como j&#225; lembrou Muniz Sodr&#233;..&nbsp;</p><p>Adepto do paradigma emp&#237;rico, o fil&#243;sofo Teilhard de Chardin disse que &#233; mau para as ci&#234;ncias ter mais id&#233;ias do que fatos. Mas o que podem os fatos num contexto de brutalidade, de ferocidade, no qual eles s&#227;o volatilizados e reduzidos a nada?&nbsp;</p><p>*Fragmento do artigo que ser&#225; publicado na Revista Boitempo, no dossi&#234; sobre Feminismos deste ano de 2026.</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>